E voltando ao Hadron Collider (que eu me pelo por uma catastrofezinha)
1 Comment Published by Catarina C. Agosto 13th, 2008 in 100nada.Já ando a saborear (isto no caso de não acontecer a Constelação do Leão no dia 10 de Setembro) todas os queixumes possíveis no pós choque das partículas. Roída para poder escrever “ai, ando com uma coisa que não sei o que é, dá-me sono/fome/vontade de comer chocolates/acordar a desoras/comprar muitos pares de sapatos de outono e inverno/ficar a ver séries até às três da manhã/mais coisas, e acho que é das partículas que andam na estratosfera/mentosfera/blogsfera/collidersfera/saldodovisosfera, enfim, não sei lá como, mas creio que a culpa é toda do Higgs (se não sabe o que é o Higgs, clique no link e deixe a sinopse nos comentos, que não tenho tempo de ler aquilo tudo). Culpar uma partícula teórica é uma sensação bestial. E, na volta, tem andado aqui o tempo inteiro, a puta da partícula e nós a sermos levadas a pensar que era uma coisa hormonal ou feromonal ou mesmo relacionada com o problema dos plafonds dos cartões de crédito. Enfim, coisas de gaja e eles, os gajos, sempre naquela, “isso é coisa de gaja!” como fazem sempre e nós afinal a sofrermos os efeitos de uma porra de uns coisoiões secretos que se escondem por trás de partículas teóricas. Tá mal! Felizmente dia 10 de Setembro, isto se não acontecer a Constelação do Leão, tudo isso se vai finalmente poder explicar e até provar e eles hão-de ter que engolir o que nos dizem e quem sabe? se o Hadron Collider não vai ser o responsável pelo abaixamento generalizado de tampas de sanitas e a arrumação de todos os milhões de toalhas molhadas deixadas sobre as camas! Olé! Mal posso esperar!
rodapezinho catita: se acaso alguém vem aqui parar pela pesquisa Hadron Collider é que vai ver o que é um Hadron Collider cerebral já com muita prática…ós anos que tenho as partículas teóricas das minhas sinapses todas ao estaladão
Tenho amigas maravilhosas. Aliás, refraseando: todas as minhas amigas são maravilhosas, mas algumas são mais maravilhosas que outras, na medida em que quando uma diz mata, a outra ainda está a ouvir mat…e já está a responder esfola! Sabe realmente bem ouvir aquilo que ainda nem se disse mas só porque não calhou e esfolar em conjunto uma data de gente, factos, ideias e mais tudo o que tiver tido o azar de se atravessar à frente de qualquer uma de nós dentro da conversa. E depois, connosco, não escapa nada…:D
Graças ao Vítor I que postou o link nos comentos abaixo (obrigada!) podem ver aqui umas fotos magníficas do Large Hadron Collider.
Os comentos ao artigo são de cair para o lado a rir (enfim, ainda li algumas centenas) e, no meio daquilo, descobri este filme giríssimo, que explica tudinho.
mas hoje, em termos de trabalho, foi um daqueles dias que ficam para a história como dos bons. Dos mesmo bons.
Nada disso. Mas Deus me livre e guarde de levar os meus leitores pelos caminhos das séries de televisão que não valem um corno, sem os avisar. Aquele tal Lost Room de ontem e que hoje dá o segundo episódio daqui a pouco e que eu faço tenções de ir ver? É uma valente merda. A história é estúpida, as personagens são um bocado burras e dá para encher o espaço entre um pensamento e o resto dos croquetes, agora acompanhados a chocolate Daim do Ikea. (Esqueci-me de dizer ontem que, quando dei por mim, também estava a rapar o fundo a uma embalagem de Hagen Dazs, ando a tratar-me bem). Por Ikea, um inferno aquela porra. Já sei onde é que os urbanos e suburbanos passam as férias em dias de menos sol: a passear entre móveis de montar, toalhas e “oportunidades”; a vida não está para graças e as “oportunidades” estavam quase vazias (e o Ikea não dorme em serviço: vi uma oportunidade de uma mesa que comprei há tempos por 11 euros, desta vez a 34 e já só lá havia uma).
De resto - agora esta parte para me situar mais tarde, quando vier ver ao blog alguma coisa por datas, para saber se este verão era o verão das séries ou dos puzzles - o mundo lá vai saltitando entre as guerras com russos e os jogos olímpicos dos chineses, que irão ficar na minha memória como aquele espectáculo que vi com a miudagem até às duas da manhã. Há assaltos com reféns, snippers em cima de telhados que falham alguns tiros, com grande pena minha e pais extremosos levam os putos para os assaltos, onde a pontaria escusava de ter sido tão certeira. Deus escreve direito por linhas tortas e esta merda está quase a virar o faroeste. Ou já era, mas agora temos televisão real life em real prime time.
Tudo isto poderia ser importante não fosse ontem ter visto o Jornal das Nove: concluí que é muito provável que o mundo acabe lá para os lados de dia 10 de Setembro, quando os protões forem acelerados, nada de grave, porque não vai acontecer nada senão a tentativa de simulação de um pequeno Bingbangzinho, ali para os lados de Geneva, que pode explicar mistérios do universo, buracos negros e coisas assim. Vai correr bem, de certeza, a menos que resulte num literal buraco negro financeiro. Até porque os cientistas estão na esperança que aconteça o inesperado. Ora bem, cá estamos todos para ver o céu ficar roxo e depois
roxo? roxo porquê?
verde! O céu verde era lindo, com os protões todos a fazerem o desenho de um leão. Estrelas ou assim. A Constelação do Leão. Muito mais giro que Via Láctea, ora digam lá que não é.
Nessa altura até já se me acabaram as férias, portanto…se fosse a meio é que seria mais chato.
lá sai um post.
Ontem, cheguei a casa vinda de fim de semana (sem net). A correr arrumar coisas para me instalar a acabar o livro que estava a ler. Consegui. Nem me lembro se liguei o computador.
Hoje, chego a casa e, depois de afazeres vários (incluindo fritar uma dúzia de croquetes do Lidl) instalo-me a ver séries na televisão. Por mero acaso tropeço no primeiro episódio de uma série que me tinham falado ainda ontem, um espanto (Band of Brothers). Depois faço zapping por House, Bones e CSI’s, enquanto vou alternando croquetes com cigarros.
Lá olho para o computador. Encolho os ombros, ligo e escrevo este post.
É mais que óbvio que já estava de férias de blog e agora estou em férias de net. Só preciso mesmo de ir de férias completas, coisa que vai acontecer daqui a três dias. Até lá, só se cair o telhado e se não acertar no computador e no modem é que aqui volto. Estou noutra, não tenho a mais pequena vontade. A rapaziada do tricot sabe onde me encontrar (entretanto está quase a começar o Lost Room e vou ver que tal é que aquilo é).
a uma grande amiga/inimiga mortal. Porque as coisas são o que são e não se volta atrás e é por isso que temos isto, este poder de activamente nos esquecermos de todas as mágoas e e desentendimentos e maldades que fazemos e que nos fazem quando começamos a disparar contra quem nos abre feridas: temos esta coisa a que, no nosso cinismo de cicatrizes, chamamos fraqueza. Mas não é, chamem-me totó, que não me importo nada. Já cá ando há anos suficientes para saber que colecções de ressentimentos só levam a uma desumanidade que nos gela por dentro. É preciso ultrapassar isso, se queremos crescer como pessoas. É o caminho para a sabedoria, acredito nisso com toda a fé que tenho. É preciso saber perdoar/ser perdoado.
E recomeçar.
A música pode ser um bocado lamechas, mas o tipo tem uma voz de cair para a banda.
E nunca soube soletrar de cor o nome dele
12 Comments Published by Catarina C. Agosto 4th, 2008 in 100nada.Corria o ano de 1976 e, o ainda fresco 25 de Abril e demais datas que se lhe tinham seguido, tinham significado para mim – à altura uma fedelha de 12 anos - uma troca. Na perda de país, família, amigos, escola, cão e gato, sol, mar e praia, aulas de natação, de música e de gravura e até tarecos e tralhas que as meninas dessas idades coleccionam ávida e cuidadosamente (ou coleccionavam, pois um lápis, caderno ou borracha do Charlie Brown ou da Sarah Kay vindos de Londres, era tesouros nesse tempo) restava o essencial: mãe e irmãs, porque pai “ainda lá”. E, nessa troca, tinha ainda ganho um inverno de geadas numa terra perdida lá para longe, ao largo da E.N. nº 1, coisa de cinco horas de viagem em dias sem muito trânsito, uma coisa vaga chamada “liberdade” e uma biblioteca.
Preocupamo-nos nós agora se os miúdos estão a ler coisas que são para as idades deles e eu também me preocupo, o que vem provar que passamos pelas situações e, mesmo assim, quando somos nós a decidir, achamos que temos que ter todos os cuidados e “e calhar este livro não é próprio”. Mas eu, aos 12 anos e com uma funçanguice de ler descoberta uns anos antes, enfiada no cu de Judas, com um frio de morte e uma espécie de alienação do mundo, lamentando a perda do meu, que basicamente tinha acabado aquando da chegada dessa tal liberdade, olhei para aquelas paredes cobertas de estantes e percebi que ali estava a saída que era absolutamente necessária para (ultra)passar aqueles invernos gelados e solitários de província.
Comecei numa ponta e fui correndo estantes. A biblioteca tinha uma secretária e uma cadeira (do meu avô, do qual restavam também as pilhas e pilhas dos Diários da República ou Boletins qualquer coisa de Direito), uma mesa de jogo e quatro cadeiras à volta, a lembrar-me a ausência dos primos das outras casas que, no verão, ali passavam as noites no King (o póker veio mais tarde, na mesa da sala de jantar e a lerpa e o sete e meio ainda não me eram permitidos, embora jogasse a feijões) e um sofá (do meu pai, penso) de couro preto, onde me aninhava, com o livro que estivesse a ler na altura, sempre ao som de música muito alto, da aparelhagem dos meus pais, que tinha ido para ali.
Às vezes, a minha mãe abria a porta e dizia “filha, está aqui tanto frio, anda ali para a sala para o pé de nós” e eu, de raiva contra o mundo e tudo o que ficava fora daquelas paredes protegidas por livros – outra dimensão, uma porta para a saída e por isso mesmo, classificada aparte do mundo – “Não quero! Não vou! Estou bem aqui” e “Ó mãe, quando sair feche a porta” já a empurrá-la para fora dali; olhando agora para trás e lamentando essa “miúda”, quase dez anos mais nova do que sou agora, tendo ficado sem tudo também e mais marido e com aquelas três filhas, a mais velha imersa na pior idade do armário do universo, desterrada em casa alheia e a tentar lavrar mágoas numa horta que ia cavando quando o mundo desabava. Escondia-se na sua horta, a minha mãe e eu na minha biblioteca (mas eu podia lá ficar).
Lembro-me vagamente de aulas, idas para o liceu de bicicleta, o frio nas orelhas de manhã, ainda quase noite, almoços e jantares à mesa, de manas chatas (nos seus 8 e 9 anos) a treparem árvores e a serem uns inferninhos embirrantes. Do frio, sim, lembro-me bem do horroroso frio que ali pairava como uma nuvem dentro de casa, das montanhas de cobertores na cama, das botijas, lareiras e braseiras, de não se poder andar de blusão dentro de casa e ter que o despir, quando dentro era mais frio que lá fora; e de mais umas coisas vagas, como o Natal e a liberdade e a televisão a preto e branco.
Comecei uma ponta de uma estante e li tudo, durante aqueles anos. A vaga liberdade que eu nem sabia bem o que era, era isso mesmo, aquilo que os meus pais me tinham mostrado dessa forma “podes ler o que quiseres, o que não perceberes perguntas”; livros de toda a gente, as traduções dos franceses e os Júlios Dinis dos avôs, as colecções Dois Mundos, as Pearls Bucks da minha mãe e os Thomas Mann do meu pai. Li aquela porra toda, de uma ponta à outra, entre os 11 e os 13 anos. Não percebi metade, mas uma das estantes tinha uma Enciclopédia que, nas suas dezenas de volumes, ia até à letra S. O resto perguntava. Não perguntei muita coisa, creio. Não porque entendesse, mas porque talvez tenha pensado que deveria ficar a germinar.
Algumas coisas ficaram a germinar até hoje. É o caso de “O Pavilhão dos Cancerosos”, “O Último Círculo” e “O Arquipélago de Gulag”. E, ainda hoje, não consigo soletrar de cor o nome do homem. Faço copy-paste do nome e continuo sem perceber se não deveria ter lido Alexandr Solzhenitsyn uns anos mais tarde. Mas serviu-me de contraponto brutal a todos os Leon Uris que, na altura também devorei, aos horrores dos campos e aos holocaustos: do outro lado eram igualmente maus.
Não tivesse lido aos 12 anos, seria outra pessoa de certeza (mas gosto de ser como sou).

vais adorar!
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